Classe média está mais endividada e mais inadimplente

Endividamento geral permaneceu estável em maio, mas deve voltar a crescer no segundo semestre. Inadimplência há mais de 90 dias é a mais alta em três anos

 

Foto: Renato Santos.

O percentual de famílias com dívidas a vencer permaneceu inalterado em maio pelo quarto mês consecutivo, representando 78,3% das famílias no País. Mas, segundo estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), esse índice deve voltar a crescer em julho deste ano. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), apurada mensalmente pela CNC, apontou ainda que, desse total, 18% dos brasileiros se consideram muito endividados, maior percentual desde agosto de 2022.

O endividamento dos consumidores permanece estável desde dezembro do ano passado, especialmente por conta do encarecimento e da seletividade das concessões de crédito pelas instituições financeiras. A taxa média de juros das concessões de crédito às pessoas físicas alcançou 59,7% ao ano em abril, o maior percentual desde agosto de 2017, segundo dados do Banco Central.

"A alta dos juros tende a ter maior influência nas contas da classe média, enquanto o incremento de políticas voltadas para os benefícios sociais tem reflexo nas faixas de menor renda. Isso explica, em boa parte, os resultados da Peic de maio", afirma o presidente da CNC, José Roberto Tadros.

A Peic também apontou estabilidade na parcela de consumidores com dívidas atrasadas em maio, que alcançou 29,1 % do total de famílias (próximo da média trimestral, que é de 29,2%). Por outro lado, entre as famílias inadimplentes, 11,8% afirmaram que não terão condições de pagar dívidas já atrasadas, o maior percentual desde outubro de 2020. "A cada cinco famílias inadimplentes, uma afirmou que não conseguirá pagar dívidas de meses anteriores. Os juros elevados dificultam o pagamento da dívida atrasada, pois pioram as despesas financeiras", pontua Izis Ferreira, economista da CNC responsável pela pesquisa.

Endividamento avança na classe média

Conforme Izis Ferreira, o endividamento ocorreu de maneira distinta entre as faixas de renda na passagem de abril para maio: houve queda da proporção de endividados entre os mais pobres e os mais ricos (0,3 p.p. nos dois casos), enquanto o percentual de endividados aumentou nas faixas de rendimento médio. Na comparação anual, no entanto, o endividamento cresceu em todos os grupos.

Em maio, 79,6% das famílias que ganham de três a cinco salários estavam endividadas – maior percentual entre as faixas de renda observadas – um aumento de 0,9 p.p., em relação a abril, e de 1 p.p. no comparativo anual. Daquelas que têm rendimentos de cinco a dez salários mensais, 78% estavam endividadas em maio, um crescimento de 0,2 p.p. na comparação mensal e de 2 p.p. em relação a maio do ano passado.

O padrão se repetiu no que diz respeito à inadimplência, com aumento do indicador na classe média: o contingente de pessoas que recebem entre três e cinco salários mínimos e estão com dívidas atrasadas cresceu 1,9 p.p. em maio; e, entre aquelas que ganham de cinco a dez salários, o índice subiu ainda mais: 2,1 p.p. Mas o maior percentual de inadimplência segue entre as famílias com renda de zero a três salários, atingindo 36,3% delas.

Segundo Izis Ferreira, o maior alcance e aumento dos valores do Bolsa Família e a retomada das contratações formais de pessoas com menor escolaridade têm auxiliado os consumidores que recebem menos de três salários mínimos a pagar as dívidas. "São eles, também, o principal foco de renegociações e, com isso, o risco de inadimplência vem aumentando mais na classe média", explica a economista.

Inadimplência acima de três meses deve reduzir no segundo semestre

A economista responsável pela Peic explica ainda que o volume de consumidores com atrasos por mais de 90 dias segue a tendência de alta. Cerca de 45,7% do total de inadimplentes estão com atrasos por mais de três meses, maior percentual em três anos. A CNC estima que esse índice, no entanto, deve reduzir gradualmente no segundo semestre, encerrando o ano próximo a 44,5%. Mesmo com a diminuição, caso se concretize esse prognóstico, a proporção anual será a maior desde 2019.

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